sábado, fevereiro 07, 2015

A Bela Adormecida

(À minha irmã)


Vou deixá-la descansar. 

Antes disso, porém, preciso apenas de chorar umas letrinhas. Que serão sempre insuficientes para as palavras lhe fazerem jus mas… tenho de as chorar. E nem isso saberei fazer porque, de intimidadas, escorrem desorganizadas, as letrinhas, mas a Bela, a Anabela, perdoa-me; não fossem lágrimas.

Não me lerá estas palavras. Jamais acordará do sono que dorme. Encontro conforto em outras que me leu, que me ouviu, gémeas destas, gémeas afinal como nós éramos, não na idade, na alma. Foi assim desde que me lembro de mim e, até há bem pouco tempo, tinha mais recordações de mim, do que eu próprio; quanto vale uma mana mais velha?!

Só eu sei o quanto me amava; como pude eu ser amado assim?! Via em mim algo que eu não sentia ser, mas era, para a minha mana eu era e, por isso, passei a ser para mim também, afinal sempre soube mais do que eu. Mudou o meu mundo, aos poucos, quando fui percebendo a dimensão da importância da minha palavra. Do meu silêncio presencial; a alegria que a minha presença lhe trazia!... As forças que recarregava no meu abraço. A vaidade com o meu beijo. O orgulho pelos laços sanguíneos.

Fazia questão de me dizer que não amava ninguém como me amava. Eu sei que nunca ninguém me amou tanto.

Fez-me sentir Humano. Faz-me senti-la “A” mana.

Maninha:
Só vou perder-te na morte,
Já só falto eu morrer.
Quem me dera ter a sorte
De, na morte, te reaver.

Anabela
04/07/1967 – 27/05/2014

6 comentários:

  1. Já cá chegou, V.
    Faz tão bem!

    Outro para ti. Grande.

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  2. Um beijinho grande de força. Não deixo de pensar que apesar da tristeza que vives, conheceste um amor de irmão que não é para todos e isso é uma felicidade imensa.

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  3. Olá Brandie.

    Essa é de facto a minha grande felicidade. Por muito limitados que nos consideremos, em vários níveis, e não concordarmos por isso com o que pensam de nós, principalmente quando nos elevam, sentir bem cá dentro, bem no nosso intimo que somos amados, estimados por aquilo que significamos para alguém... Alguém que diz de ti algo com que tu podes não concordar mas que ainda assim tem o mesmo direito a dizê-lo, porque o vive e sente, que tu tens a negá-lo é...

    Fui um privilegiado.

    Falámos em morte umas vezes. Sempre disse que queria ir à minha frente. Por um lado, respiro com o alívio que a certeza que não irá viver a dor que trago me proporciona. Por outro... bem, por outro imaginarás...

    Um beijinho.

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A "ler" é que a gente se entende.